A morte da brasileira Kathlyn Izabel Becker, de 28 anos, encontrada sem vida em um quarto de hotel em Zagreb, capital da Croácia, permanece sem causa oficialmente determinada. Mais de um mês após a morte, a família ainda aguarda resultados de exames realizados na Europa e no Brasil e tenta obter acesso aos documentos da investigação conduzida pelas autoridades croatas.
Natural de Ji-Paraná, em Rondônia, Kathlyn deixou o Brasil em 29 de abril de 2026 com a intenção de trabalhar no exterior. Segundo a família, ela havia recebido uma proposta de emprego na Sérvia e pretendia usar parte do dinheiro que ganharia para ajudar os pais, especialmente no tratamento de saúde do pai, que sofre de osteomielite e necessitava de uma prótese.
O que deveria ser uma viagem em busca de trabalho terminou de maneira inesperada. De acordo com o relato da mãe, Geruza Becker, quando Kathlyn chegou à Sérvia descobriu que a vaga para a qual havia viajado já estava preenchida. Posteriormente, segundo familiares, ela acabou seguindo para a Croácia acompanhada por pessoas que não foram identificadas publicamente.
Últimos dias e perda de contato
A família afirma que manteve contato com Kathlyn durante o período em que ela estava na Europa, mas deixou de receber notícias da jovem a partir de 23 de agosto.
Nos dias seguintes, os familiares passaram a procurar informações sobre o paradeiro dela e recorreram à representação diplomática brasileira na Croácia.
Em 27 de agosto, a família procurou a Embaixada do Brasil em Zagreb para obter informações sobre Kathlyn. Pouco depois, recebeu a confirmação de que a brasileira havia sido encontrada morta.
Segundo os documentos e relatos divulgados posteriormente, Kathlyn havia sido localizada sem vida cinco dias antes, em 22 de agosto, dentro de um quarto de hotel em Zagreb.
A diferença entre a data da morte e a comunicação recebida pela família tornou-se um dos pontos da cronologia que os parentes procuram esclarecer.
Certidão não determina a causa da morte
Um dos principais pontos de dúvida no caso está justamente na causa do óbito.
A certidão emitida em Zagreb, com data de 4 de setembro, não apontou uma causa determinada para a morte. O documento registra a causa como desconhecida ou não identificada.
A família afirma que uma das primeiras informações recebidas sobre o caso indicava a possibilidade de um problema cardíaco. Essa hipótese, porém, não aparece como causa definida na documentação posteriormente conhecida pelos familiares.
Por isso, a defesa da família solicitou acesso ao conjunto de exames realizados na Croácia, incluindo a documentação relacionada à necropsia e aos exames laboratoriais.
O advogado Joaci Ferreira da Silva, que acompanha a família, procurou o Instituto Médico Legal de Zagreb para solicitar cópia integral dos documentos periciais. Segundo as informações repassadas ao advogado, parte dos resultados poderia levar entre três e quatro meses para ser concluída.
A liberação do relatório final deverá ser solicitada às autoridades responsáveis pela investigação criminal em Zagreb.
Polícia de Zagreb reteve pertences da brasileira
Outro elemento confirmado no acompanhamento do caso é que a ocorrência foi registrada perante a Polícia de Zagreb.
Segundo informações repassadas à família pelo setor consular brasileiro, os pertences pessoais de Kathlyn permaneceram retidos pelas autoridades croatas para auxiliar na investigação.
A medida pode permitir a análise de objetos, documentos e outros elementos relacionados aos últimos dias da brasileira na Croácia.
Até o momento, não foram divulgados publicamente detalhes suficientes para estabelecer o que ocorreu dentro do hotel ou quem esteve com Kathlyn antes de sua morte.
Família relata ameaças
Além das dúvidas relacionadas à viagem e à morte, familiares afirmaram que Kathlyn vinha relatando situações de ameaça antes de morrer.
A informação foi divulgada pela imprensa brasileira e também repercutida por veículos croatas.
A família considera que esse aspecto precisa ser esclarecido pelas autoridades responsáveis pelo caso. Não há, até o momento, informação pública que permita afirmar quem teria feito as supostas ameaças ou qual seria a motivação.
Por isso, a existência das ameaças deve ser tratada como relato da família, e não como fato criminal já comprovado.
Outra mulher teria viajado com Kathlyn
Outro ponto que passou a fazer parte dos questionamentos da família envolve uma segunda mulher.
Segundo relatos de familiares divulgados durante a apuração, Kathlyn teria viajado para a Europa acompanhada de outra mulher que também teria recebido uma proposta de trabalho.
Depois da morte de Kathlyn, os familiares afirmam que não conseguiram mais estabelecer contato com essa mulher.
A família busca informações sobre o paradeiro dela e considera que essa pessoa pode ter informações relevantes sobre a viagem, a proposta de trabalho e a chegada de Kathlyn à Croácia.
Até o momento, não há confirmação pública de que essa circunstância esteja relacionada à morte da brasileira.
Corpo retornou ao Brasil em setembro
Com dificuldades financeiras para custear o transporte internacional do corpo, familiares e amigos organizaram uma campanha de arrecadação.
A mobilização conseguiu reunir aproximadamente R$ 84.950, valor utilizado para viabilizar o traslado da Croácia para o Brasil.
O corpo chegou a Porto Velho, em Rondônia, no dia 13 de setembro.
Antes do sepultamento, Kathlyn foi submetida a um novo exame necroscópico no Brasil, solicitado no contexto da apuração.
O procedimento também não conseguiu estabelecer a causa da morte.
Segunda perícia também aponta causa indeterminada
A análise realizada em Rondônia encontrou uma dificuldade adicional: o corpo já havia passado por procedimentos periciais e de conservação na Europa.
Segundo informações divulgadas pela perícia, havia transcorrido mais de 20 dias desde a morte, além de o corpo já ter sido submetido a uma necropsia na Croácia e a dois processos de embalsamamento, um realizado no país europeu e outro em São Paulo.
Esses fatores dificultaram a análise das alterações naturais do organismo e a identificação de eventuais sinais que poderiam ajudar a esclarecer a causa da morte.
Durante o novo procedimento realizado em Porto Velho, foram coletadas amostras biológicas.
O material foi encaminhado à Polícia Técnico-Científica de Rondônia, a Politec, para exames toxicológicos complementares.
Os resultados ainda são aguardados.
O que os exames toxicológicos podem esclarecer
Os exames toxicológicos poderão ajudar a verificar a presença de determinadas substâncias no material coletado durante a perícia brasileira.
No entanto, enquanto os resultados não forem divulgados, não é possível afirmar que houve intoxicação, envenenamento ou administração de qualquer substância.
A causa da morte permanece oficialmente indeterminada nas informações públicas disponíveis até o momento.
Família busca assistência jurídica na Croácia
A família também enfrenta uma dificuldade jurídica: a investigação criminal ocorre em território croata.
A Embaixada do Brasil pode prestar assistência consular, mas não possui competência para atuar como representante criminal da família perante as autoridades da Croácia.
Por isso, o advogado que acompanha o caso procurou a Defensoria Pública da União (DPU) em busca de apoio relacionado à assistência jurídica internacional.
A família afirma não ter condições financeiras para contratar um advogado particular na Croácia.
O objetivo é conseguir acesso aos documentos do procedimento policial e aos resultados da investigação realizada em Zagreb.
Atuação da Polícia Federal
A família também procurou a Polícia Federal brasileira para pedir apoio na apuração das circunstâncias da morte.
A PF não divulgou detalhes sobre eventual procedimento e afirmou que não comenta denúncias recebidas nem a existência ou o andamento de apurações, procedimentos ou investigações em curso.
Por isso, embora diferentes reportagens tenham informado que a PF apura ou investiga o caso, a posição pública da corporação até o momento não permite detalhar a natureza ou o estágio de eventual procedimento.
O novo exame realizado em Porto Velho foi solicitado no contexto desse acompanhamento, e os resultados toxicológicos são aguardados.
Sepultamento em Ji-Paraná
Depois da chegada do corpo ao Brasil, Kathlyn foi levada de Porto Velho para Ji-Paraná.
O velório teve início na noite de 13 de setembro, e o sepultamento ocorreu na manhã de 14 de setembro, no Cemitério da Saudade.
A despedida foi precedida por uma mobilização de familiares, amigos e moradores da região para arrecadar os recursos necessários ao traslado internacional.
A campanha conseguiu atingir aproximadamente R$ 84,9 mil, permitindo que o corpo retornasse à cidade onde viviam familiares da jovem.
Cronologia do caso
29 de abril de 2026: Kathlyn deixa o Brasil para trabalhar no exterior, segundo relato da família.
Abril e meses seguintes: a brasileira segue inicialmente para a Sérvia após receber uma proposta de trabalho. Segundo a família, ao chegar ao país, descobre que a vaga já havia sido preenchida.
Posteriormente: Kathlyn segue para a Croácia, segundo familiares, acompanhada por pessoas que não foram identificadas publicamente.
22 de agosto: Kathlyn é encontrada morta em um quarto de hotel em Zagreb.
23 de agosto: familiares deixam de conseguir contato com a jovem, segundo a família.
27 de agosto: familiares procuram a Embaixada do Brasil em Zagreb e recebem a confirmação da morte.
Final de agosto: começa a mobilização para custear o traslado do corpo para o Brasil.
4 de setembro: é emitida a certidão de óbito, sem causa determinada.
13 de setembro: o corpo chega a Porto Velho e passa por novo procedimento necroscópico.
13 de setembro: o corpo chega a Ji-Paraná para o velório.
14 de setembro: Kathlyn é sepultada no Cemitério da Saudade, em Ji-Paraná.
Setembro: material biológico coletado na perícia brasileira é encaminhado para exames toxicológicos complementares.
24 e 25 de setembro: o caso passa a ter nova repercussão nacional e internacional após a família pedir esclarecimentos e apoio da Polícia Federal e buscar assistência jurídica para acompanhar a investigação na Croácia.
Perguntas que permanecem sem resposta
Mais de um mês depois da morte, algumas das principais questões continuam sem esclarecimento público:
- Qual foi a causa efetiva da morte de Kathlyn?
- O que apontaram a necropsia e os exames laboratoriais realizados na Croácia?
- Por que a jovem foi levada da Sérvia para a Croácia depois de descobrir que a vaga de trabalho havia sido preenchida?
- Quem eram as pessoas que a acompanharam nessa mudança de país?
- Quem teria oferecido o trabalho inicialmente?
- As ameaças relatadas pela família podem ser confirmadas pelas autoridades?
- Quem esteve em contato com Kathlyn nos dias anteriores à morte?
- Quem era a mulher que, segundo familiares, teria viajado com ela após receber a mesma proposta de trabalho?
- Os exames toxicológicos realizados no Brasil poderão identificar alguma substância relevante para a investigação?
- O que consta no inquérito registrado pela Polícia de Zagreb?
Até o momento, nenhuma dessas questões foi definitivamente respondida pelas autoridades.
A família aguarda os resultados dos exames realizados no Brasil e na Croácia e tenta obter acesso à documentação oficial da investigação.
A morte de Kathlyn Izabel Becker permanece, portanto, cercada por dúvidas, enquanto as autoridades dos dois países analisam elementos distintos do caso.
A SNC TV News continuará acompanhando o caso e atualizará esta reportagem à medida que novos documentos, laudos ou informações oficiais forem divulgados.











