O seringueiro e agricultor familiar Augusto Bezerra da Silva, de 65 anos, viveu por décadas com os impactos de uma doença rara diagnosticada ainda na juventude, no interior do Acre. A enfermidade, conhecida como Doença de Jorge Lobo (ou lobomicose), mudou completamente sua rotina, sua saúde e sua vida social.
A doença é uma infecção fúngica que provoca lesões na pele com aparência de nódulos endurecidos, semelhantes a queloides. Esses sinais podem surgir em diferentes partes do corpo, como rosto, braços, pernas e orelhas, e tendem a evoluir lentamente ao longo dos anos.
Além dos danos físicos, o problema também provoca forte impacto psicológico. Em muitos casos, o estigma leva pacientes ao isolamento social, já que as lesões costumam chamar atenção e gerar constrangimento.
Foi o que aconteceu com Augusto. Ele conta que precisou interromper o trabalho na roça à medida que as feridas avançavam, causando dor, coceira e inflamações sintomas que pioravam com a exposição ao sol. A situação acabou afastando-o até mesmo da convivência com a própria família por um período.
“Não é fácil viver assim, principalmente quando a gente é jovem e vê tudo mudando sem controle”, relatou.
Segundo dados do Ministério da Saúde, centenas de casos da doença já foram registrados no Brasil, com maior concentração na região amazônica, especialmente no Acre. A enfermidade foi identificada pela primeira vez em 1931 e segue sendo considerada rara e negligenciada.
Durante muitos anos, pacientes enfrentaram dificuldades para obter diagnóstico e tratamento adequados. Esse cenário começou a mudar com a criação de um projeto de assistência e pesquisa em parceria com o Ministério da Saúde, que passou a acompanhar pacientes na região Norte e estruturar um modelo de atendimento dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).
O tratamento utiliza medicamentos antifúngicos já disponíveis na rede pública e pode incluir intervenções cirúrgicas em casos específicos. O acompanhamento é feito por equipes especializadas, com apoio de centros de referência em estados como Acre, Amazonas e Rondônia.
De acordo com profissionais envolvidos, um dos principais desafios ainda é o acesso às comunidades mais isoladas, o que exige deslocamentos complexos e acompanhamento contínuo.
No caso de Augusto, o tratamento trouxe melhora significativa, com redução das lesões e retomada gradual da convivência familiar. Ele afirma que hoje se sente mais aliviado, embora ainda siga em acompanhamento médico.
Além da assistência direta, o projeto também desenvolveu um manual técnico para apoiar profissionais de saúde no diagnóstico e tratamento da doença, considerado um passo importante para melhorar o atendimento e reduzir o impacto da enfermidade.
A expectativa das equipes envolvidas é avançar para a criação de protocolos oficiais no SUS, ampliando o acesso ao cuidado e reduzindo os efeitos de uma doença que ainda atinge populações em situação de vulnerabilidade.










