Poucos assuntos deverão ser tão importantes para o próximo governador de Minas Gerais quanto a situação financeira do Estado. A dívida pública consolidada mineira ultrapassa R$ 200 bilhões e a renegociação com a União por meio do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) tornou-se um dos principais temas da eleição de 2026.
Os números ajudam a explicar o tamanho do problema. Segundo o Governo de Minas, o saldo devedor confessado da dívida com a União era de R$ 179,3 bilhões na data-base de 1º de dezembro de 2025. O valor foi refinanciado por 360 meses dentro do Propag. No balanço estadual, a dívida pública total chegou a aproximadamente R$ 204,8 bilhões em janeiro de 2026.
A adesão ao Propag modificou as condições do endividamento. Minas passou a ter a dívida com a União corrigida pelo IPCA, sem juros reais, e se comprometeu a realizar aportes anuais no Fundo de Equalização Federativa e investimentos em áreas estratégicas. Para obter a redução prevista pelo programa, o Estado também utilizou ativos suficientes para uma amortização extraordinária de 20% do saldo.
O problema é que a renegociação não elimina a dívida. Ela muda o perfil e o cronograma dos pagamentos. De acordo com os documentos do Estado, as parcelas começam com um percentual reduzido em 2026 e aumentam progressivamente até chegar ao pagamento integral previsto para 2030.
A questão passou diretamente para o debate eleitoral.
No primeiro debate entre os candidatos ao governo, realizado pela Band em 16 de agosto, a crise fiscal foi um dos principais pontos de confronto. Mateus Simões responsabilizou o governo federal pela dificuldade financeira de Minas e defendeu uma relação de negociação com a União. Cleitinho também defendeu o diálogo com o próximo presidente da República e classificou o Propag como uma solução necessária, embora imperfeita.
Alexandre Kalil adotou uma linha diferente e criticou decisões relacionadas à política fiscal do governo anterior, enquanto Gabriel Azevedo questionou a gestão de empresas estatais. Flávio Roscoe, por sua vez, defendeu a privatização da Copasa durante o debate.
As empresas públicas são outro ponto sensível da discussão. O desenho do Propag permite que estados utilizem ativos para reduzir parte da dívida, o que colocou empresas como Cemig, Copasa e Codemig no centro do debate sobre o futuro do patrimônio estadual. A Assembleia Legislativa já havia destacado que o programa possibilita o uso de imóveis, participações societárias e direitos creditórios na amortização da dívida.
O governo também precisará cumprir os compromissos de investimento previstos pelo programa. Em agosto, por exemplo, a Assembleia Legislativa registrou a abertura de crédito suplementar de R$ 35,6 milhões para investimentos vinculados ao Propag. Em julho, outro crédito de aproximadamente R$ 79,6 milhões havia sido aberto com a mesma finalidade.
A dimensão da dívida significa que o próximo governador não terá liberdade completa para definir a política fiscal. Qualquer projeto de expansão de investimentos, redução de impostos ou aumento de despesas terá de considerar o espaço disponível no orçamento e os compromissos assumidos com a União.
Por isso, o debate sobre a dívida deixou de ser exclusivamente técnico e passou a representar diferentes visões sobre o papel do Estado.
Enquanto candidatos de perfil mais liberal defendem maior participação da iniciativa privada e revisão de gastos, setores de esquerda defendem a preservação de empresas públicas e criticam privatizações. Patrus Ananias, por exemplo, declarou ser contrário à desprivatização da Copasa e favorável à manutenção de empresas públicas como Cemig e Codemig.
O eleitor mineiro, portanto, não escolherá apenas quem comandará o Estado entre 2027 e 2030. A eleição também definirá qual estratégia política será utilizada para administrar uma dívida bilionária, preservar serviços públicos e, ao mesmo tempo, ampliar investimentos.
A principal pergunta que ficará para os candidatos durante a campanha é simples, mas de difícil resposta: como equilibrar as contas de Minas sem comprometer a capacidade do Estado de investir em saúde, educação, segurança e infraestrutura?
É nessa resposta que poderá estar uma das principais diferenças entre os projetos apresentados ao eleitor.











