Um novo levantamento nacional revela que pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) ainda enfrentam grandes dificuldades para acesso a diagnóstico e tratamentos no Brasil. O estudo indica que a maior parte dos atendimentos ocorre fora da rede pública de saúde.
A pesquisa, chamada Mapa Autismo Brasil (MAB), é considerada o primeiro perfil sociodemográfico nacional sobre pessoas autistas e foi divulgada na quinta-feira (9/04) pelo Instituto Autismos.
Levantamento ouviu mais de 23 mil pessoas
O estudo reuniu 23.632 entrevistas online realizadas entre 29 de março e 20 de julho de 2025. Entre os participantes, foram ouvidos:
- 16.807 responsáveis por pessoas autistas
- 4.604 adultos autistas
- 2.221 pessoas que se identificam como autistas e também responsáveis
O levantamento teve abrangência nacional, com participação em todos os estados brasileiros.

Acesso ao SUS ainda é limitado
Os dados mostram que, embora cerca de um quarto da população tenha acesso a planos de saúde, apenas 20,4% dos entrevistados receberam diagnóstico confirmado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O estudo também aponta que somente 15,5% realizam terapias pela rede pública, enquanto a maioria depende de planos de saúde ou atendimento particular, que somam mais de 60% dos casos.
Segundo o levantamento, isso revela um cenário de desigualdade no acesso aos serviços especializados.
Perfil das terapias no país
Entre todos os participantes, 56,5% fazem até duas horas semanais de terapia, número considerado abaixo do recomendado por padrões internacionais para acompanhamento multidisciplinar.
Em relação ao tipo de atendimento, os serviços mais citados foram:
- Psicoterapia: 52,2%
- Terapia ocupacional: 39,4%
- Fonoaudiologia: 38,9%
- Psicopedagogia: 30,8%
- Terapia ABA: 29,8%
Outras terapias aparecem em menor escala, como fisioterapia (12,5%), musicoterapia (11%), nutrição (10,2%), psicomotricidade (15%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%).
Além disso, 16,4% dos entrevistados afirmaram não realizar nenhum tipo de terapia.
Diagnóstico ainda é tardio em muitos casos
O levantamento mostra que, apesar de muitos diagnósticos ocorrerem na infância, ainda há casos tardios que impactam a média geral.
A distribuição dos diagnósticos indica:
- 51,7% até 4 anos de idade
- 17,1% entre 5 e 9 anos
- 6,1% entre 10 e 14 anos
O estudo também aponta que a média de diagnóstico é de 11 anos, enquanto a mediana é de 4 anos, mostrando diferença significativa entre os casos.
Quem identifica os primeiros sinais
Segundo a pesquisa, os primeiros sinais do autismo são percebidos principalmente por familiares:
- 55,9% por familiares próximos
- 11,4% pela própria pessoa autista
- 7,3% por médicos
- 9,4% por professores
O diagnóstico é feito principalmente por especialistas:
- Neurologistas ou neuropediatras: 67%
- Psiquiatras: 22,9%
Rede privada ainda predomina no diagnóstico
O levantamento aponta que:
- 55,2% dos diagnósticos ocorreram na rede particular
- 23% por planos de saúde
- 20,4% pelo SUS
A dependência do sistema público é maior nas regiões Norte e Nordeste, segundo o estudo.
Terapias e custo mensal
O gasto com terapias também varia bastante. Os dados mostram que:
- 24,8% gastam entre R$ 501 e R$ 1.000 por mês
- 22,2% entre R$ 1.001 e R$ 3.000
- 20,9% entre R$ 101 e R$ 500
- 5,7% gastam até R$ 100
- 4,3% gastam mais de R$ 5.000
- 4,2% não souberam informar
Tempo de terapia é considerado baixo
Em relação à carga horária semanal:
- 25,9% fazem 1 hora por semana
- 12,44% fazem 2 horas
- 18,13% não realizam terapia
- Apenas 1,54% alcançam 40 horas ou mais
O Instituto Autismos avalia que esses números indicam limitação de acesso e custo elevado dos tratamentos.
Educação e inclusão
Entre os entrevistados, 83,7% frequentam instituições de ensino, sendo:
- 52,26% em escolas públicas
- 31% em escolas particulares
- 16% fora da escola
No entanto, 39,9% não recebem nenhum tipo de apoio educacional.
Entre os recursos mais citados estão:
- Monitor ou tutor: 23,8%
- Mediador ou acompanhamento especializado: 18,8%
- Adaptações pedagógicas: 18,8%
- Sala de recursos: 18,1%
Situação de adultos e cuidadores
Entre adultos autistas (18 a 76 anos), 29,9% estão desempregados ou sem renda.
Entre os que trabalham, os dados mostram:
- 21,1% servidores públicos
- 20% com carteira assinada
- 8,1% autônomos
- 6,7% pessoa jurídica
- 5,9% sem carteira assinada
Além disso, parte dos participantes depende de benefícios sociais, aposentadoria ou pensão.
Conclusão do estudo
O Mapa Autismo Brasil aponta que, apesar dos avanços no diagnóstico e no debate sobre o TEA, o país ainda enfrenta desigualdade no acesso a tratamento, terapias e inclusão social, especialmente na rede pública de saúde.











