Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros está prestes a ganhar escala industrial e transformar um material que normalmente seria descartado em um produto destinado à área da saúde.
O Brasil terá a primeira fábrica do mundo dedicada à produção em larga escala de curativos biológicos feitos a partir da pele de tilápia. A unidade será construída no município de Jaguaribara, no interior do Ceará, e deverá entrar em operação em 2028.
A tecnologia foi desenvolvida ao longo de anos de pesquisas na Universidade Federal do Ceará (UFC) e utiliza a pele da tilápia como material para curativos destinados principalmente ao tratamento de queimaduras e feridas.
Pele do peixe vira curativo biológico
A proposta chama atenção porque utiliza uma matéria-prima que, depois do processamento do pescado, normalmente seria descartada.
Para ser utilizada como curativo, a pele da tilápia passa por um processo de preparação e liofilização, que permite retirar a água do material e posteriormente reidratá-lo para aplicação médica.
Segundo pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da tecnologia, o material pode permanecer aderido à área lesionada durante o processo de regeneração, reduzindo a necessidade de trocas frequentes de curativos.
A tecnologia começou a ser estudada pela UFC há cerca de uma década e passou por pesquisas e testes clínicos antes de avançar para a etapa de produção industrial. Os primeiros testes em seres humanos começaram em 2015 para avaliar a segurança do material.
Tratamento é voltado principalmente para queimaduras de segundo grau
De acordo com os pesquisadores, o curativo de pele de tilápia é atualmente indicado para queimaduras de segundo grau, que atingem camadas mais profundas da pele.
Antes da aplicação, a ferida precisa ser limpa e os tecidos necrosados são retirados. Depois, o curativo é colocado sobre a região afetada.
A expectativa é que a pele de tilápia permaneça aderida à ferida durante parte do processo de regeneração. Em alguns casos, podem ser necessárias apenas uma ou duas trocas durante a recuperação, segundo informações divulgadas pelos pesquisadores.
A possibilidade de reduzir o número de trocas é considerada uma das vantagens da tecnologia, já que os procedimentos tradicionais podem exigir trocas frequentes e causar desconforto aos pacientes.
Fábrica será construída no Ceará
A unidade industrial será instalada em Jaguaribara, município localizado no Vale do Jaguaribe e próximo ao Açude Castanhão.
A escolha da cidade está relacionada à forte produção de tilápia na região, o que facilita o acesso à matéria-prima necessária para a fabricação dos curativos. Jaguaribara é apontada como um dos principais polos de produção do peixe no Ceará.
O projeto reúne o Governo do Ceará, a Prefeitura de Jaguaribara e a empresa Biotec Medical Xenograft Engineering.
O investimento inicial previsto é superior a R$ 52 milhões, considerando recursos públicos e privados.
Produção poderá chegar a milhares de curativos por dia
A expectativa é que a fábrica comece produzindo milhares de curativos diariamente.
Segundo informações divulgadas pela empresa responsável pelo projeto, a capacidade inicial deverá ficar em aproximadamente 4.500 curativos por dia, com possibilidade de chegar a 13 mil unidades diárias no segundo ano de operação.
A UFC havia informado anteriormente que a produção ainda ocorre em escala limitada nos laboratórios da universidade, com cerca de 600 unidades por mês. A industrialização permitirá ampliar significativamente o acesso ao produto.
Tecnologia pode reduzir custos do SUS
Além do potencial médico, o projeto também tem impacto econômico.
Segundo estimativa apresentada pela empresa responsável pela tecnologia, a utilização do curativo poderá reduzir em 50,5% os gastos atuais do SUS com tratamentos convencionais de queimaduras. Trata-se, porém, de uma projeção apresentada pela empresa e que dependerá da adoção efetiva da tecnologia pelo sistema de saúde.
Os números do Ministério da Saúde mostram o tamanho da demanda. Em 2025, foram registradas 32,9 mil internações por queimaduras no SUS, com gastos de aproximadamente R$ 92,5 milhões. Até julho de 2026, já haviam sido registradas cerca de 16 mil internações, com despesas de R$ 46,8 milhões.
Projeto também mira o mercado internacional
A produção não deverá ficar restrita ao mercado brasileiro.
A expectativa é que parte dos curativos seja destinada à exportação. Segundo representantes do projeto, já existem manifestações de interesse de compradores de países como México, Portugal e Turquia.
A prioridade inicial, entretanto, deverá ser o atendimento da demanda brasileira, incluindo hospitais e o Sistema Único de Saúde.
Produto ainda precisa de aprovação da Anvisa
Apesar dos avanços, o curativo ainda precisa cumprir todas as etapas regulatórias antes de ser comercializado em larga escala.
O produto deverá ser submetido à avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Até o momento, não existe uma data definida para a aprovação regulatória.
Portanto, a previsão de funcionamento da fábrica em 2028 não significa que o produto estará automaticamente disponível para todos os pacientes nessa data. A comercialização dependerá do cumprimento das exigências sanitárias e regulatórias.
Pesquisa brasileira pode gerar novos produtos
A tecnologia também não deverá ficar limitada ao tratamento de queimaduras.
Segundo pesquisadores da UFC, a pele de tilápia já foi estudada em outras aplicações médicas. Entre elas está o uso em cirurgias de reconstrução vaginal, com resultados positivos em determinados casos.
A universidade continuará recebendo royalties pela exploração comercial da tecnologia. A expectativa é que os recursos também sejam utilizados para financiar novas pesquisas e desenvolver outros produtos a partir da pele do peixe.
Da pesquisa universitária para uma fábrica
A história da pele de tilápia usada na medicina é um exemplo de como uma pesquisa desenvolvida dentro de uma universidade pode chegar à indústria.
Depois de anos de estudos e testes, uma tecnologia criada por pesquisadores brasileiros começa agora a avançar para a produção em escala industrial.
Se todas as etapas regulatórias forem concluídas conforme o planejamento, Jaguaribara poderá sediar, a partir de 2028, a primeira fábrica do mundo dedicada à produção industrial de curativos de pele de tilápia para uso médico.
A iniciativa reúne ciência, piscicultura, indústria e saúde em um mesmo projeto e pode transformar um subproduto da produção de pescado em uma alternativa para o tratamento de milhares de pacientes.











