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“Putita, vaca, volta pra sua terra”: brasileira sofre ataque xenofóbico no trabalho em Portugal

Yara Freitas, de 22 anos, foi alvo de ofensas e humilhações por parte de uma cliente em uma loja do Gaia Shopping

Correspondente Lian Lucas Por Correspondente Lian Lucas
27/06/25 17h18
em Portugal
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“Putita, vaca, volta pra sua terra”: brasileira sofre ataque xenofóbico no trabalho em Portugal

Brasileiros vêm enfrentando uma onda de xenofobia em Portugal/Foto Divulgação

Com um sorriso no rosto e a rotina já conhecida, a jovem brasileira Yara Freitas, de 22 anos, saiu de casa para mais um dia de trabalho como assistente de loja em uma unidade de cosméticos dentro do Gaia Shopping, em Vila Nova de Gaia, região norte de Portugal. Mas apenas 30 minutos após o início do expediente, tudo mudou.

Yara foi surpreendida por uma série de ataques verbais, insultos xenofóbicos e humilhações por parte de uma cliente  e o que era para ser apenas mais uma tarde comum se transformou em um dos episódios mais difíceis de sua vida.

“Atendi clientes chorando. Alguns me perguntavam o que tinha acontecido, outros achavam que eu estava com alergia nos olhos. Mas eu só queria sair dali. Fiquei assim até as 21h30. Aquilo acabou com o meu dia”, conta Yara, em entrevista exclusiva à SNC tv news.

QUEM É YARA FREITAS?

Nascida na cidade de São Paulo, Yara de Freitas Costa tem apenas 22 anos de idade, está em Portugal há 1 ano e 1 mês. Chegou ao país com visto de trabalho e encontra-se totalmente legalizada. Inicialmente viveu com o pai, mas buscou sua independência, passou a morar sozinha no Porto, onde mantém uma vida ativa e trabalha há cerca de 10 meses na loja onde tudo aconteceu. É a única brasileira na equipe local.

COMO TUDO COMEÇOU

No dia 17 de junho, por volta das 15h, Yara atendeu uma cliente de cerca de 60 anos que procurava um batom. O atendimento, segundo ela, começou normalmente. Mas ao chegar ao caixa, a mulher questionou:

“Ela perguntou: ‘só há brasileiras atendendo aqui agora?’ A partir disso, começou a corrigir a minha forma de falar e disse que eu não falava corretamente o português de Portugal.”

ESCALADA DE OFENSAS E XENOFOBIA

A cliente, ainda segundo Yara, passou a falar em tom ríspido, exaltado, e a atacá-la verbalmente. Foram diversos insultos:

“Ela me chamou de ‘vaca’, ‘putita’, ‘parva’, ‘destituída’ e disse que eu tinha ‘problemas mentais graves’. Ainda disse que eu era malcriada e que, por estar em Portugal, tinha que aprender o português de Portugal.”

A cliente também afirmou em alto e bom som que a jovem deveria “voltar pra sua terra”. Tentando manter a calma, Yara respondeu com ironia:

“Disse pra ela: ‘tá bem, mumu… cada um oferece o que tem, e a senhora tem isso pra oferecer’. Senti que ela queria me tirar do sério, como se quisesse que eu a xingasse de volta. Mas eu não entrei no jogo, apenas ironizei”.

A cliente exigiu o livro de reclamações, acusou Yara de ser malcriada, e ao sair da loja ainda gritou que “esperava que todos os imigrantes fossem embora de Portugal”.

Dois insultos marcaram Yara profundamente:

“Acho que o pior foi ouvir ‘você não passas de uma puta’ e o ‘volta pra sua terra’. É muito baixo você xingar uma pessoa que não conhece, gratuitamente, da maneira que ela fez. Esse ‘volta pra sua terra’ ficou enraizado em muita gente. Eu vim aqui buscar uma vida melhor, trabalho e pago meus impostos como qualquer outro. Não é justo ouvir isso.”

IMPACTO EMOCIONAL

Mesmo em choque, Yara seguiu trabalhando até o fim do expediente, embora em prantos:

“Só pensava que não podia chorar na frente dela, não larguei minha família no Brasil pra isso. Mas foi impossível segurar.”

A gerente da loja assistiu ao vídeo do episódio e ficou extremamente abalada:

“Ela disse que não entende o que está acontecendo com as pessoas hoje em dia. Me apoiou muito.”

DA DOR À DENÚNCIA

Após refletir e conversar com a mãe, que vive em São Paulo com a filha mais nova, Yara decidiu registrar uma queixa formal contra a agressora.

“Minha mãe me acalmou, lamentou o que aconteceu, disse que infelizmente há gente assim no mundo e que eu precisava manter a cabeça erguida.”

O caso foi formalizado no dia 26 de junho na PSP – Esquadra de São Mamede de Infesta, no município de Matosinhos, na região metropolitana do Porto. Ela foi acolhida pela polícia e orientada a evitar contato com a agressora.

“Foi a primeira vez que fui a uma delegacia. Estava com medo, mas fui muito bem tratada. A agente me explicou tudo com calma. Me senti acolhida e sinto que vou conseguir justiça.”

Apesar de ter denunciado, Yara não busca compensação financeira:

“Não quero dinheiro. Não acho que ela vá ser presa, mas gostaria que fosse chamada para depor. Uma multa já seria o suficiente, só para ela entender que não pode tratar as pessoas assim.”

O QUE DIZ A LEI

Segundo o Código Penal Português, no Artigo 240.º, a prática de atos racistas ou xenófobos  como incitar ao ódio, à violência, à discriminação, ou ofender alguém com base na raça, etnia, origem nacional, religião, entre outros é crime punível com pena de prisão, que pode ir de 6 meses a 8 anos, dependendo da gravidade do ato.

Além disso, a Lei n.º 93/2017, atualizada pela Lei n.º 3/2024, reforça a punição de discriminação racial e étnica, mesmo em contextos como acesso a serviços, educação, trabalho, habitação ou redes sociais. Esta lei também prevê coimas(multas) e sanções administrativas para casos que não configuram crime penal, mas que ainda assim são atos discriminatórios.

MENSAGEM A OUTROS IMIGRANTES

“Diria para pensarem que o problema está nessas pessoas, não em nós. Eu sei da minha verdade, trabalho honestamente, vim pra somar. Não devemos aceitar esse tipo de coisa caladas, porque o silêncio só reforça a violência.”

PRESENÇA BRASILEIRA NA REDE E SILÊNCIO DA EMPRESA

Yara é a única brasileira em sua loja, mas ligações feitas pela SNC tv news  para outras unidades da mesma rede de cosméticos em Lisboa confirmaram que a maioria dos atendentes é formada por brasileiros  o que revela a forte presença de imigrantes no quadro de funcionários da empresa, que conta com 47 lojas em Portugal.

A reportagem tentou contato com a empresa responsável pela marca. Por telefone, uma unidade da rede em Lisboa informou que uma pessoa responsável corporativa entraria em contato com com nosso jornalista, o que não aconteceu. Também foram enviados e-mails solicitando um posicionamento oficial da empresa sobre o assunto.

Vale ressaltar que o site da empresa onde Yara trabalha não possui um canal de contato direto para a imprensa, o que dificulta a comunicação.

Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno da empresa. O espaço segue aberto.

POSIÇÃO DA OUTRA PARTE

A SNC tv news  News não conseguiu contato com a cliente envolvida no caso. Diante da repercussão da matéria, o espaço também permanece aberto para que ela ou seus representantes se manifestem.

A SNC tv news  entrou em contato com a PSP (Polícia de Segurança Pública), que confirmou que a brasileira Yara Freitas esteve na esquadra para formalizar a representação. Ela compareceu ao local na quinta-feira, 26 de junho, por volta das 22h30.

#snctvnews #portugal

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Lian Lucas é jornalista com mais de 15 anos de experiência na comunicação brasileira. Natural de Governador Valadares (MG), trabalhou em afiliadas da TV Globo em Minas Gerais, Espírito Santo e Mato Grosso, e foi repórter da TV Brasil no interior de São Paulo. Foi editor e apresentador do Jornal Primeira Página na Rádio Centro América FM, em Mato Grosso. Atualmente, Lian mora em Portugal, onde atua no ramo da comunicação e é o correspondente oficial da SNC tv news no país. Ele possui registro na CCPJ em Portugal, sob o número JE-254.

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