Portugal vive o ponto mais alto da sua história recente no número de imigrantes. De acordo com dados divulgados pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), o país ultrapassou a marca de 1,6 milhão de residentes estrangeiros legais até o primeiro semestre de 2025 o equivalente a cerca de 15% da população total.
O aumento expressivo confirma uma tendência iniciada em 2017, quando Portugal contava pouco mais de 420 mil imigrantes. O crescimento foi impulsionado pela chegada de cidadãos de países africanos de língua portuguesa, Índia, Nepal e Brasil, que continua liderando a lista de nacionalidades mais representadas.
Apesar do contributo económico só entre janeiro e setembro de 2024 os imigrantes injetaram 2,6 bilhões de euros na Segurança Social , a pressão sobre os serviços públicos e o sistema de regularização levou o governo a rever a Lei dos Estrangeiros e a Lei da Nacionalidade.
Nova Lei da Imigração e Nacionalidade
Em junho de 2025, a Assembleia da República aprovou um pacote de alterações legislativas que endurece as condições de permanência e naturalização de estrangeiros. A principal mudança está no prazo mínimo de residência para obtenção da nacionalidade, que passa de cinco para dez anos, salvo exceções para cidadãos de países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que terão de comprovar sete anos de residência legal.
Além disso, a nova legislação cria mecanismos de verificação documental mais rigorosos e permite à AIMA indeferir processos com irregularidades antes mesmo da tramitação final. Apenas em 2025, mais de 33 mil pedidos de legalização foram rejeitados pela agência.
Autoridades portuguesas justificam as medidas como forma de “ordenar o processo migratório” e garantir “integração sustentável”. No entanto, associações de defesa dos imigrantes criticam a proposta por dificultar a regularização de famílias que já vivem e trabalham no país há vários anos.
“Portugal precisa de imigrantes, mas também precisa de regras claras. O problema é quando a lei fecha portas para quem já está integrado”, afirmou uma advogada especializada em direito migratório, em entrevista à SNC TV News.
Integração e desafios sociais
Apesar dos avanços na política de acolhimento, muitos estrangeiros continuam enfrentando subemprego e precarização laboral. Segundo levantamentos recentes, 42,8% dos imigrantes em Portugal exercem funções abaixo da sua qualificação profissional, contrastando com 15,7% entre os cidadãos portugueses.
A dificuldade em validar diplomas estrangeiros, a falta de acesso a cursos técnicos e a carência de políticas de habitação acessível são alguns dos principais entraves à integração plena.
“Temos engenheiros, professores e técnicos qualificados a trabalhar em limpeza, construção e hotelaria. É um desperdício de potencial humano”, comentou um representante de uma ONG de apoio ao imigrante em Lisboa.
Mesmo com os desafios, a presença estrangeira é vista como essencial para compensar o envelhecimento da população portuguesa e manter a sustentabilidade da Segurança Social.
Brasil segue na liderança
O Brasil continua a ser a principal origem de estrangeiros em Portugal, com uma comunidade estimada em mais de 400 mil pessoas. Brasileiros estão em todas as regiões do país, mas concentram-se sobretudo em Lisboa, Setúbal, Faro e Porto.
Para muitos, o idioma e a proximidade cultural tornam Portugal um destino natural — mas o custo de vida elevado e o mercado de trabalho competitivo têm levado parte dos imigrantes a regressar ao Brasil ou buscar novos destinos na União Europeia.
“Vim com a esperança de recomeçar, mas os preços de aluguel e o salário mínimo não acompanham. Mesmo assim, ainda acredito que Portugal é um país de oportunidades”, disse uma brasileira residente em Almada há três anos.
O futuro da imigração em Portugal
O governo português promete anunciar até o fim de 2025 novas medidas de integração e reconhecimento de qualificações profissionais, com foco em áreas estratégicas como saúde, tecnologia e agricultura.
Enquanto isso, entidades da sociedade civil alertam que o país deve encontrar um equilíbrio entre controlo e acolhimento, sem perder a imagem de “porta de entrada” para quem busca recomeçar na Europa.
“A imigração é uma força que renova Portugal. A questão agora é saber se o país está preparado para recebê-la com dignidade e visão de futuro.”











