A Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos dos Estados Unidos, aprovou na quarta feira 18/06, um novo tratamento com injeções semestrais para a prevenção do HIV. Desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences, o medicamento Yeztugo, com princípio ativo lenacapavir, demonstrou eficácia superior a 99,9% em estudos clínicos envolvendo milhares de participantes.
O lenacapavir age como um inibidor do capsídeo do vírus HIV uma estrutura essencial para sua replicação. Sem essa “armadura”, o vírus encontra grande dificuldade para se multiplicar e se instalar no organismo. O tratamento com aplicação a cada seis meses surge como uma alternativa promissora para substituir a profilaxia pré-exposição (PrEP) oral diária, atualmente considerada o padrão internacional para prevenção do HIV.
Segundo o infectologista Carlos del Rio, professor emérito da Universidade Emory, a injeção semestral pode eliminar barreiras significativas, como a dificuldade de adesão e o estigma social que algumas pessoas enfrentam ao tomar o comprimido diário. “Muitas pessoas que precisam ou desejam usar a PrEP preferem doses menos frequentes”, afirmou o especialista.
Diferença entre prevenção e cura
É importante destacar que o lenacapavir não é uma vacina nem uma cura para o HIV. O medicamento funciona como um remédio preventivo, impedindo a infecção em caso de contato com o vírus, similar aos comprimidos da PrEP. A eficácia comprovada ocorre com a aplicação de duas doses ao ano, embora protocolos em estudo indiquem que uma única dose anual possa oferecer proteção.
Resultados dos estudos
Dois grandes estudos clínicos apoiam a eficácia do lenacapavir:
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Em um estudo com mais de 2 mil mulheres na África Subsaariana, o medicamento reduziu as infecções em 100%.
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Outro estudo global, com 2 mil homens e pessoas de gêneros diversos, registrou uma eficácia de 99,9%.
Para comparação, o Truvada, o principal comprimido da PrEP oral, apresentou taxas de prevenção ao redor de 95%, impacto reduzido principalmente pelas dificuldades na adesão diária ao medicamento.
Desafios do alto custo
Apesar do avanço, o preço do lenacapavir preocupa especialistas e ativistas. Nos Estados Unidos, o tratamento anual com duas doses pode custar até US$ 25 mil (aproximadamente R$ 137,5 mil). Para o uso como terapia de tratamento do HIV avançado, o valor pode chegar a US$ 39 mil por ano (cerca de R$ 214,6 mil).
O infectologista Andrew Hill, da Universidade de Liverpool, destaca que, para que o medicamento seja acessível globalmente, especialmente em países de baixa e média renda, o custo deve cair drasticamente, estimando um preço ideal próximo a US$ 25 por dose.
Em resposta, a Gilead firmou acordos com seis fabricantes para produzir versões genéricas do medicamento em mais de 120 países, mas ainda aguarda aprovações regulatórias.
Situação no Brasil
O Brasil participou dos testes clínicos do lenacapavir, que envolveram voluntários no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids, em São Paulo, além de outros países da América do Sul, África e Sudeste Asiático.
Os resultados brasileiros indicam uma redução ainda maior na incidência de HIV entre os usuários da injeção em comparação com a PrEP oral: 0,04% contra 0,11%. Os efeitos colaterais mais comuns foram dor no local da aplicação, cefaleia e náusea.
Até o momento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não aprovou o uso do lenacapavir para prevenção ou tratamento no país. Em dezembro de 2024, o Ministério da Saúde defendeu a formação de uma aliança global para acelerar a produção e o acesso ao medicamento.
Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e IST do Ministério da Saúde, ressaltou a importância da cooperação internacional para garantir o acesso ao novo tratamento, especialmente considerando o alto custo e a realidade dos países em desenvolvimento.
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