Celebrado em 18 de fevereiro, o Dia Mundial do Vinho destaca a importância da vitivinicultura e do consumo responsável da bebida. A data ganha ainda mais significado em Andradas, no Sul de Minas Gerais, onde uma vinícola familiar vem se destacando pela produção de rótulos premiados, pelo investimento em enoturismo e por práticas sustentáveis.
Entre montanhas e vinhedos cultivados em solo de origem vulcânica, uma história centenária ganha novo fôlego a cada safra. Nesse cenário, o agrônomo e viticultor José Procópio Stella decidiu transformar memória familiar, conhecimento técnico e paixão pelo vinho em um projeto vitivinícola com identidade própria. À frente da Vinícola Stella Valentino, ele conduz um negócio estruturado desde o vinhedo, aprimorado na adega e consolidado na experiência oferecida ao visitante.
Agrônomo por formação e viticultor por vocação, José Procópio cresceu entre parreiras plantadas por antepassados italianos que chegaram à região no final do século 19. A uva sempre fez parte da paisagem e da rotina da família, ainda que, por décadas, o vinho fosse produzido apenas para consumo doméstico. Após uma longa trajetória profissional fora da propriedade, decidiu retornar com o propósito de produzir melhor, apoiado em método, pesquisa e visão de futuro.
“Eu sabia que dava para produzir um vinho diferente aqui, desde que respeitássemos o campo e entendêssemos o mercado”, resume. A decisão marcou uma nova fase, em que tradição e inovação caminham juntas. Mais do que elaborar vinhos finos, o produtor passou a estruturar um modelo de vinícola familiar sustentável, ancorado no rigor técnico e em uma leitura atenta das oportunidades do setor.
🍇 Tradição italiana enraizada no território mineiro
A história da Vinícola Stella Valentino se confunde com a cultura de produção de vinhos em Andradas. A família Stella chegou ao Brasil em 1888, vinda do Vêneto, no Noroeste da Itália, e iniciou sua trajetória no cultivo do café. Em 1910, adquiriu a propriedade onde, além da cafeicultura, passou a plantar uvas e a produzir vinho de forma artesanal, voltado ao consumo próprio.

Ao longo do século 20, a produção local atravessou ciclos de expansão e retração, acompanhando transformações econômicas e tecnológicas. Mesmo assim, a uva permaneceu na rotina da família, fator decisivo para a retomada mais estruturada da atividade no início dos anos 2000, quando José Procópio voltou à propriedade com o objetivo de profissionalizar a produção.
🧪 Do vinhedo ao vinho fino, com método e identidade
A qualidade dos vinhos finos produzidos pela Stella Valentino está diretamente ligada à adoção da técnica da dupla poda, desenvolvida pelo pesquisador Murilo Regina, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).
O método inverte o ciclo produtivo da videira e permite a colheita no inverno, período mais seco e favorável à maturação das uvas viníferas. A técnica reduz riscos climáticos, melhora a sanidade dos cachos e estabelece relação direta entre o manejo da uva e a qualidade do vinho, viabilizando a produção de vinhos finos no terroir sul-mineiro.
A escolha das variedades é criteriosa e passa por anos de avaliação agronômica antes de chegar ao consumidor. “Primeiro analisamos a adaptação da planta; depois, a vinificação em pequena escala; e, por fim, a resposta do público. Nem tudo vira rótulo”, explica o produtor.
O rigor técnico também se estende à vinificação. Cada vinho é tratado como um projeto específico, com definição de temperatura de fermentação, seleção de leveduras, tempo de maturação e tipo de rolha, conforme o perfil desejado. Com produção anual entre 15 mil e 18 mil garrafas, a vinícola mantém perfil familiar, priorizando consistência, identidade e qualidade.
🏅 O terroir sul-mineiro traduzido em medalhas
O conjunto de fatores naturais e técnicos tem se refletido em premiações nacionais. O terroir de Andradas, com altitude favorável, elevada incidência solar e solo de origem vulcânica, contribui para a maturação equilibrada das uvas e para vinhos mais estruturados e expressivos.
O Tempranillo 2022 foi o grande campeão da categoria Tempranillo no All The Best – Grande Prova de Vinhos do Brasil 2025, com 93 pontos e medalha Duplo Ouro. Já o Tempranillo Gran Reserva 2023 conquistou medalha de Ouro no Brasil Selection 2025, edição brasileira do Concours Mondial de Bruxelles.
As conquistas reforçam o potencial da vitivinicultura mineira quando associada à técnica, à pesquisa e à identidade territorial. “O reconhecimento é consequência de um trabalho que começa no campo e respeita o tempo do vinho”, destaca José Procópio.
🍷 Experiência e degustação como estratégia de mercado

Produzir vinhos finos em pequena escala no Brasil exige planejamento financeiro e leitura de mercado. Por isso, desde o início, a estratégia foi estruturar a vinícola como um negócio integrado, capaz de gerar valor além da garrafa.
O enoturismo tornou-se peça-chave nesse modelo. Degustações orientadas e venda direta ao consumidor ampliam a receita e fortalecem o vínculo com o público. Atualmente, a Stella Valentino recebe cerca de 600 turistas por mês.
Para o futuro, a vinícola planeja ampliar as experiências com a inauguração de um wine bar ainda no primeiro semestre de 2026, além do desenvolvimento de variedades mais resistentes e produtivas, com potencial para reduzir custos e ampliar o acesso a vinhos de entrada. “Se conseguirmos unir qualidade técnica e preço mais acessível, o mercado cresce junto”, avalia.
🌱 Sustentabilidade como diretriz produtiva
O compromisso ambiental integra a estratégia da propriedade. A Stella Valentino possui certificação Selo Pró-Ambiente ESG, reconhecimento destinado a empreendimentos que adotam práticas sustentáveis. Na vinícola, os resíduos da vinificação são reaproveitados e áreas passam por reflorestamento, em um trabalho contínuo de preservação dos recursos naturais e uso responsável do território.
🤝 Apoio institucional e acesso a mercados
Projetos como o da Stella Valentino se conectam ao trabalho do Sebrae Minas, que atua no fortalecimento de vinícolas familiares e pequenos negócios do agro por meio de capacitações, incentivo à inovação e ações voltadas à ampliação de mercado.
“O apoio do Sebrae Minas contribui para a inserção da vinícola em espaços estratégicos e amplia a visibilidade dos rótulos. A participação em feiras e eventos do setor, como o Origem Vulcânica, aproxima o consumidor final da nossa produção, valoriza os produtos do Sul de Minas e estimula o enoturismo”, conclui o produtor.











