A morte de uma brasileira na Alemanha mobiliza familiares no Brasil, autoridades diplomáticas e levanta alertas sobre os riscos do uso de aquecedores a gás durante o inverno europeu. Luciana Soares da Silva, pernambucana de 41 anos, morreu após uma suspeita de intoxicação por gás, provocada por um vazamento num sistema de aquecimento da residência onde vivia, na cidade de Cölbe, no estado alemão de Hesse.
O caso ocorreu na madrugada de segunda-feira (15), período em que a família estava em casa, possivelmente em descanso. Luciana encontrava-se no andar térreo do imóvel, enquanto os dois filhos um menino de 8 anos e uma bebé de apenas dois meses estavam no pavimento superior, juntamente com o companheiro, cidadão alemão.
Luciana Soares da Silva com os filhos Kauã e Maria — Foto: Reprodução/WhatsApp
Frio intenso e uso contínuo de aquecimento
O episódio aconteceu num dos períodos mais rigorosos do ano na Europa. Durante o inverno, as temperaturas na Alemanha frequentemente se aproximam ou ficam abaixo de zero, o que leva muitas famílias a utilizarem aquecedores a gás de forma contínua, sobretudo durante a noite.
Segundo relatos da família, Luciana foi encontrada desacordada próxima à lareira, local onde funcionava o sistema de aquecimento. O companheiro tentou prestar socorro, mas a casa já estava tomada pelo gás, e ele também acabou desmaiando.
As crianças sobreviveram por estarem em outro andar da residência, onde a concentração do gás era menor. Elas foram socorridas e encaminhadas a uma unidade de saúde, assim como o pai, que chegou a ficar internado em estado grave. Todos receberam alta médica nos dias seguintes, exceto Luciana, que não resistiu.
Falta de contacto levantou alerta no Brasil
A preocupação da família começou ainda no domingo (14), quando Luciana deixou de responder mensagens e chamadas, algo considerado incomum pelos parentes. A confirmação da morte só chegou na terça-feira (16).
A filha mais velha da vítima, Larissa Kevlyn Soares da Silva, de 21 anos, que vive no Recife, foi a primeira a receber a notícia.
À esquerda, Larissa, Luciana e Kauã Soares da Silva; à direita, Luciana com os filhos Kauã e Maria — Foto: Reprodução/WhatsApp
“Minha mãe falava comigo todos os dias. Quando ela não respondeu, a gente estranhou. Soube da morte quando estava me arrumando para trabalhar. Quem me avisou foi o companheiro dela, ainda internado”, relatou.
Segundo Larissa, a comunicação foi difícil nos primeiros dias, já que o companheiro da mãe esteve sedado e internado na UTI, o que aumentou a angústia da família.
“Ficamos muito tempo sem notícias. Foi desesperador”, afirmou.
Investigação em andamento
Até o momento, a família informa que não teve acesso a um laudo oficial de óbito. As autoridades alemãs conduzem uma investigação para apurar as circunstâncias exatas da morte.
“O que nos disseram é que houve um vazamento de gás no aquecedor. A investigação ainda está em andamento”, explicou Larissa.
A jovem acredita que a mãe estava dormindo no momento da intoxicação, o que, segundo ela, traz algum conforto em meio à dor.
“Acho que ela desmaiou e foi adormecendo. Acredito que não sentiu dor”, disse.
Situação das crianças preocupa familiares
Além do luto, a família enfrenta um impasse delicado em relação à guarda das crianças. O menino de 8 anos é filho apenas de Luciana, fruto de um relacionamento anterior. Já a bebé de dois meses ainda não havia sido oficialmente registada pelo pai alemão.
Sem outros parentes na Alemanha, os familiares foram informados de que o menino está sob acolhimento temporário das autoridades locais. A família ainda tenta confirmar se a bebé se encontra no mesmo local.
“A gente não sabe exatamente onde eles estão, nem quem está responsável por eles agora. Isso é o que mais nos angustia”, afirmou Larissa.
Consulado brasileiro acompanha o caso
Desde terça-feira (16), o Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt acompanha o caso. Em nota, a representação informou que está em contacto com autoridades policiais, de saúde e de proteção de menores, além de orientar a família sobre os procedimentos legais.
O consulado esclareceu que a investigação da morte e a definição da guarda provisória das crianças são de responsabilidade exclusiva das autoridades alemãs, cabendo ao Brasil apenas o acompanhamento consular.
Repatriação do corpo pode custar até R$ 100 mil
Outro desafio enfrentado pela família é o traslado do corpo de Luciana para o Brasil. O custo do processo pode chegar a R$ 100 mil, valor que inclui transporte internacional, documentação sanitária e autorizações legais.
Diante da dificuldade financeira, parentes e amigos criaram uma campanha de arrecadação online para viabilizar a repatriação. Embora existam exceções legais que permitem o custeio pelo governo brasileiro em casos específicos, cada situação depende de análise individual e disponibilidade orçamentária. Clique aqui para ajudar.
Enquanto aguardam respostas das autoridades alemãs e a conclusão da investigação, os familiares vivem dias de luto, incerteza e apreensão, especialmente quanto ao futuro das duas crianças deixadas pela brasileira.
Lian Lucas é jornalista com mais de 15 anos de experiência na comunicação brasileira. Natural de Governador Valadares (MG), trabalhou em afiliadas da TV Globo em Minas Gerais, Espírito Santo e Mato Grosso, e foi repórter da TV Brasil no interior de São Paulo. Foi editor e apresentador do Jornal Primeira Página na Rádio Centro América FM, em Mato Grosso. Atualmente, Lian mora em Portugal, onde atua no ramo da comunicação e é o correspondente oficial da SNC tv news no país. Ele possui registro na CCPJ em Portugal, sob o número JE-254.